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    terça-feira, 9 de agosto de 2011

    Dos limites do humor nos meios de comunicação

    O Brasil é conhecido por seu caráter cordial, hospitaleiro, alegre, feliz e festeiro. Somos ainda conhecidos por nossa incrível capacidade de extrair humor até mesmo das piores situações. Isso não é algo ruim, pelo contrário, é ótimo, eleva nossa auto-estima e nos dá forças para viver dia após dia diante de um mar de denúncias de corrupção e violência que assombram os jornais todos os dias.

    Rir faz bem. É essencial para uma vida saudável e para sobreviver à loucura do mundo moderno e da vida adulta. Só que tenho notado um certo desvirtuamento do humor nos últimos tempos. O dito "politicamente incorreto" vem ganhando espaço cada vez mais no cenário brasileiro, e com ele, alguns abusos que não podem deixar de ser apontados.

    Em 06 de maio desse ano, a revista Rolling Stone publicou uma entrevista com o "comediante" (e explicarei em momento oportuno o uso das aspas) Rafinha Bastos, em matéria intitulada "A Graça de um Herege". O que notei foi um misto de arrogância e completa falta de bom senso nas palavras de uma pessoa que foi julgada "a mais influente do Twitter". Segue trecho da entrevista:
    "Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho." O humorista Rafinha Bastos está no palco de seu clube de comédia, na região central de São Paulo. É sábado e passa um pouco das 20h. Os 300 lugares não estão todos ocupados, mas a casa parece cheia. Ele continua o discurso, finalizando uma apresentação de 15 minutos. "Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade." Até ali, o público já tinha gargalhado e aplaudido trechos que falavam sobre como cumprimentar gente que não tem os braços, o que dizer para uma mulher virgem com câncer, e por que, depois que teve um filho, Rafinha passou a defender o aborto. Mas parece que agora a mágica se desfez. O gaúcho de 34 anos, 2 metros de altura, astro da TV, não está emplacando sua anedota sobre estupro. Os risos começam a sair tímidos e os garçons passam a ser chamados para servir mais bebida. Rafinha aparenta não se dar conta de que algo ruim está acontecendo. Em vez de aliviar, ele continua no tema. "Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço." Em vez de rir, uma mulher cochicha para alguém ao lado: "Que horror".

    [...]

    "Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho." Rafinha Bastos está outra vez no palco de seu clube. Agora já passam das 22h daquele mesmo sábado e, desta vez, todos os lugares estão tomados. Minutos antes, na rua, ele me convidou para rever o show solo: está determinado a provar que a piada sobre estupro é mesmo boa.

    A plateia está excitada, chicoteando as paredes do lugar com longas risadas. A luta
    está ganha para Rafinha. Nessa sessão, quando ele continua com o texto, anunciando o abraço no estuprador, há muitas gargalhadas e até mesmo aplausos. Do palco, ele bate ainda mais forte, ri, faz dancinhas e fala sobre a gravidez de sua esposa e o ultrassom do bebê, quando o pequeno Tom "parecia uma ameba". Ele finaliza a sequência, agradece e recebe um "ahhhhhh". As pessoas querem mais. Ele sai. Precisa ir pra casa ver a mulher e o filho. Ainda dá tempo de me levar até a porta, dar muitos autógrafos no caminho e dizer: "Viu como a piada do estupro funciona?"
     
    Eu sei que pode parecer chato, mas faltou bom senso ao comediante. Tudo bem, ele quis provar um ponto de vista: de que a população é capaz de rir de qualquer besteira que qualquer "comediante" apresenta. Só que o que ele fez foi extrapolar alguns limites: não se pode violar a norma apenas para provar um ponto de vista.

    "Ah, mas a sociedade é hipócrita, ele só fala o que todo mundo pensa". Devagar com o andor: estupro é crime, e está devidamente tipificado no art. 213 do Código Penal. O que o dito "comediante" fez foi minimizar uma conduta, reduzi-la a piada, e ignorar o que milhares de vítimas passam todos os anos nas mãos de seus algozes. Repito: faltou-lhe bom senso.

    Pois bem, não demorou para haver repercussão: Rafinha Bastos acabou sendo chamado para prestar esclarecimentos sobre suas alegações, sendo indiciado por apologia ao crime. Aqui começaram a aparecer debates sobre liberdade de expressão por toda a internet, muitos a favor ou contra o que houve. O próprio Rafinha, em sua defesa, afirmou categoricamente que "era só uma piada", e que ele era um "comediante".

    Vamos começar da base, ou seja, vamos analisar o que diz a norma Constitucional:
     
    Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

    [...]

    IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
    A vedação do anonimato prevista na norma vem exatamente para responsabilizar aqueles que abusem dessa garantia fundamental. Há limites na norma para o direito de "falar o que quiser", afinal, o seu direito de expressar-se livremente termina quando começa o meu direito à honra, por exemplo. Por isso mesmo temos condutas tipicas, como a calúnia, a injúria, a difamação, a apologia e instigação ao crime, entre outras.

    Em "A República", Platão fazia uma análise dos discursos socráticos, na qual destaca-se o seguinte pensamento:

    A prática do bem e da justiça envolve um agir ético de forma consciente, responsável e com liberdade. Assim, a virtude pode ser trabalhada de forma crescente e contínua, ao mesmo tempo em que se afasta a idéia do vício, onde nasce a liberdade sem responsabilidade. O agir ético é conduta universal na qual o indivíduo erguerá templos a virtude e cavará masmorras ao vício.

    Notem que não é de hoje a ideia de que não é possível desfrutar de liberdade sem que haja responsabilidade. São conceitos indissociáveis, e que, se por alguma sorte, fossem separados, mergulhariam a sociedade em um mais profundo caos.
     
    Voltando ao caso debatido: é muito fácil e cômodo a alguém falar o que pensa, e depois, quando a responsabilidade bate à sua porta, se esconder atrás do escudo da comédia e do humor. "Era só uma piada" não deveria ser tese de defesa para ninguém. Essa onda de "politicamente incorreto" já está saturando a paciência de muita gente, e só tem servido de desculpa para as pessoas se furtarem de suas responsabilidades. Quem não se lembra do caso de preconceito racial de outro "comediante", Danilo Gentili, via Twitter, em 2009? Ou quando fez a piada com os judeus, em Higienópolis, esse ano? No final, as mesmas saídas clássicas: pedidos de desculpas, a afirmação de que era uma piada, e nenhuma mudança de comportamento.

    "Comediante" não é quem faz graça de tudo: "rir de tudo é desespero", já dizia a velha canção. Comediante é quem faz humor com o cérebro, e não com as vísceras; é quem busca sacadas inteligentes, irônicas ou sarcásticas, sem a necessidade de ofender ou diminuir as pessoas. Rir de um crime, ou agir com preconceito, não é humor: é palhaçada, e pior, a do tipo que não tem nenhuma graça. Danilo Gentili e Rafinha Bastos afastam-se do que  comediantes deveriam de fato ser: não fazem rir, só polemizam, falam o que querem, sem se importar com os resultados, e que se escondem atrás do direito fundamental da liberdade de expressão e da pecha de "comediantes" que trouxeram pra si. Danilo Gentili aprendeu a lição e passou a entender a responsabilidade de ser um comunicador de massas. Bastos não. No caso de Bastos, há a agravante de ser o "mais influente do Twitter": o que ele tem feito dessa "influência"?

    Rafinha Bastos sabe do prestígio que goza, e mostra de forma clara o que pensa quando se trata de discutir como se sente detendo em suas mãos tanto poder de comunicação:

    "Eu sou foda. Eu sou muito foda. Não precisa o Twitter me dizer, não precisa o fã me dizer... Minha mulher, talvez, eu até goste. Meu pai. E acaba aí."

    Não estou dizendo que devemos começar uma caça às bruxas, ou que devemos afrouxar os limites de aplicação do Direito Penal, lançando mão da ultima ratio de forma extremada diante de qualquer situação. Deixemos as penas corporais para os crimes sérios, e não para os devaneios de um ególatra. Não podemos exacerbar o direito criminal com esse tipo de situação, mas também não podemos deixar que esse tipo de pensamento se prolifere dessa forma, impune, reduzindo e/ou banalizando dores alheias e condutas criminosas. Você tem a liberdade para falar o que quiser, mas precisa estar pronto para encarar a responsabilidade que decorrerá da mesma. Essa é uma verdade inexorável, a qual pessoas como Rafinha Bastos ignoram sistematicamente, acreditando que ser "comediante" lhe dá indulto para falar o que quiser. Para isso, há sanções proporcionais que podem ser aplicadas, de forma progressiva, a fim de evitar a impunidade, que podem partir desde uma simples admoestação, até penas pecuniárias.

    O humor é o que temos de melhor em nossas vidas. Prendê-lo, limitá-lo, principalmente quando o mesmo assume o papel de um poderoso instrumento de crítica social, seria um atentado contra o próprio princípio da liberdade de expressão. Mas não é isso que esses "comediantes" politicamente incorretos querem ou fazem: para eles só há o show, o espetáculo e o público, o "custe o que custar", os fins, danem-se os meios. Não deveria ser assim. Não pode ser assim. Isso é acabar com a comédia, e reduzi-la a graça sem graça alguma. O humor e a comédia precisam correr livres na sociedade; porém, aqueles que ousarem deformar ou deturpar esse valor fundamental para atender nada mais que o próprio ego, não podem se furtar de suas responsabilidades. "É muito engraçado até que alguém seja machucado... a partir daí, é hilário". Nesse mundo politicamente incorreto, Mike Patton é quem sabia das coisas.
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    6 comentários:

    1. Rafael, é tipo de humor lamentável mesmo. Pior é que a Rede Globo comprou a piada e a adaptou para o Zorro Total.

      Existe um livro que gostei muito de ler chamado A Irônia da Liberdade de Expressão, de um prof. americano chamado Owen M. Fiss.

      Lá ele expõem que devido comunicadores de auto-prestígio acabam silenciando a outra parte. Ou seja, a garantia de liberdade de expressão acaba tapando a boca de quem não tem esse prestígio.

      Sinto que é isso que acontece com o Rafinha, ele com sua fama, acaba inibindo ou marginalizando opiniões contrárias!

      Abs

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    2. Ah, seu blog sempre trata de temas sérios...

      Meu blog realmente é bobo e de menininha,

      Parabens!!!

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    3. Meh, não tem essa de blog sério ou não, cada um escreve aquilo que vem na cabeça :) Colocar pra fora é o que vale, o seu blog é excelente e tem textos super bem elaborados! Como eu sou velho e chato, os textos na sua maioria são sérios, hahahaha!

      Mande notícias, moça, a correria é grande mas ainda rola tempo pra um dedo de prosa ou dois. Grande abraço!

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    4. Humor inteligente é o da Terça Insana e o dos Os melhores do mundo. Isso quanto ao teatro, agora, quanto ao stand-up, é mais escrachado mesmo. Não estou defendendo eles, até porque tenho uma bronquinha com alguns "comediantes" que soltam comentários infelizes. Mas olha, tem uns que ainda salvam! xP

      Excelente seu texto, BTW!
      o/

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    5. Excelente texto, preciso fazer uma redação sobre o tema e encontrei aqui tudo que precisava, Parabéns ! abraço .

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    Item Reviewed: Dos limites do humor nos meios de comunicação Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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