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    quinta-feira, 2 de abril de 2015

    A Língua como Construção Social

    Já há algum tempo, foi noticiada a inclusão de uma série de novas palavras no Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa - o famoso VOLP. O destaque vem para a entrada de gírias, como "periguete", "balada" e "ricardão" (que ao contrário do que prega o senso comum, não é um Ricardo muito grande), o que deixou alguns puristas da Última Flor do Lácio de cabelo em pé. Não é pra menos: estamos sendo tomados de assalto por toda uma sorte de bizarrices linguísticas, algo que deixaria Drummond com seu neologismo ruborizado. 

    Eu admito que tenho uma birra em particular com um dos últimos Franksteins Linguísticos que nos foi imposto não há muito tempo: "presidenta". Sempre achei um absurdo, mas o termo já consta do VOLP, e está nos dicionários. Afinal, ninguém procura a "gerenta" do banco, ou a "pretendenta" para jantar, ou ainda tem uma "regenta" como chefe de Estado. O substantivo sempre foi comum de dois gêneros.

    Para entender o que houve, encontrei um excelente texto do Professor Sérgio Nogueira, que explica:
    A forma PRESIDENTA segue a tendência natural de criarmos a forma feminina com o uso da desinência “a”: menino e menina, árbitro e árbitra, brasileiro e brasileira, elefante e elefanta, pintor e pintora, espanhol e espanhola, português e portuguesa.

    Na língua portuguesa, temos também a opção da forma comum aos dois gêneros: o artista e a artista, o jornalista e a jornalista, o atleta e a atleta, o jovem e a jovem, o estudante e a estudante, o gerente e a gerente, o tenente e a tenente.

    Há palavras que aceitam as duas possibilidades: o chefe e A CHEFE ou o chefe e A CHEFA; o parente e A PARENTE ou o parente e A PARENTA; o presidente e A PRESIDENTE ou o presidente e A PRESIDENTA…

    O problema deixa, portanto, de ser uma dúvida simplista de certo ou errado, e passa a ser uma questão de preferência ou de padronização. No Brasil, é fácil constatar a preferência pela forma comum aos dois gêneros: a parente, a chefe e a presidente. É bom lembrar que a acadêmica Nélida Piñon, quando eleita, sempre se apresentou como a primeira PRESIDENTE da Academia Brasileira de Letras. Patrícia Amorim, desde sua eleição, sempre foi tratada como a presidente do Flamengo.

    É interessante observar também que formas como CHEFA e PARENTA ganharam no português do Brasil uma carga pejorativa.

    É possível, porém, que a nossa Dilma prefira ser chamada de PRESIDENTA seguindo nossa vizinha Cristina, que gosta de chamada na Argentina de LA PRESIDENTA.

    Hoje ou amanhã teremos uma resposta definitiva. Espero.
    De onde surgem esses "absurdos"? Simples: da própria cultura popular. A língua é um elemento poderoso de identidade de um povo, e podemos notar isso com mais força quando começamos a nos aventurar pelos regionalismos, ou ainda pelas variantes culturais - gírias, internet slang, entre outras. A sociedade evolui, e com ela, a língua se transforma. Ignorar isso é ignorar a própria história da linguagem no Brasil.

    Um exemplo que gosto muito de trabalhar é o "você". Essa palavrinha simples começou como um pronome de tratamento, "Vossa Mercê", que passou para "vosmicê", até chegar ao atual "você". A cultura constrói a língua, e esses ditos "absurdos" nada mais são do que reflexo desse processo permanente.

    Quem não lembra do nosso ex-Ministro Antônio Rogério Magri, e sua política econômica "imexível"? A palavra não existia, mas o uso constante do vocábulo acabou por permitir sua entrada em nosso vocabulário oficial, e hoje, consta não só no VOLP como em dicionários em geral. O mesmo aconteceu com o famigerada "presidenta", oras.

    O que nos ajuda a compreender a questão é a própria noção de que nosso vocabulário se divide entre o formalismo e o coloquialismo: enquanto para nossos textos precisamos observar as normas da Gramática Normativa da Língua Portuguesa, o coloquialismo representa a língua como elemento de identidade, a língua do povo, falado, vivida e proferida aos quatro cantos do país. Ela está errada? Não. Apenas não se recomenda seu uso em trabalhos acadêmicos e textos científicos. Prova de que não está errada, é que, se você consultar o VOLP, encontrará a palavra "ESTRUPO" perdida por lá. Pois é...

    Essas novas expressões, como "periguete", por exemplo, compõem o Vocabulário Oficial de Língua Portuguesa como expressão coloquial. Não há prejuízo algum para o português culto, formal, de livros e artigos acadêmicos: o que há é o reconhecimento de uma expressão popular, fragmento de identidade de um povo multicultural, capaz de criar palavras a partir de composições simples e engraçadas - "periguete", por exemplo, é uma corruptela da justaposição das palavras "perigo" e "girl". Dessa você não sabia, né? Deixe que o povo fale, e deixe que o povo ame sua língua: ninguém está propondo queimar gramáticas ou adotar o "nóis qué, nóis vai, nóis fica"  como modelo oficial de linguagem; tudo que estamos a fazer é reconhecer um elemento cultural brasileiro. Nada mais.

    Mas que eu ainda não engoli o "presidenta", ah, eu não engoli.
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    Item Reviewed: A Língua como Construção Social Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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