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    terça-feira, 20 de setembro de 2016

    Trabalhos de Conclusão de Curso: vale ter medo?

    Nas últimas semanas fiquei monitorando o andamento das monografias de 22 orientados que deveriam ser entregues para avaliação de conclusão de curso: a correria acabou me afastando do meu blog por uns tempos, e um convite recebido há poucos dias no Facebook me chamou a atenção para uma questão que aflige um número imenso de acadêmicos todos os dias: a monografia, ou, trabalho de conclusão de curso.

    Seria cômico se não fosse preocupante o fato de que, já há algum bom tempo, tem gente que vive da venda de serviços de "elaboração e assessoria para elaboração" (sic) de monografias.

    O que um sujeito que trabalha com isso faz é errado? Não. Não existe crime para isso. Não existe ilícito civil para isso. O comércio de trabalhos científicos é uma realidade não só no curso de Direito, mas em vários outros. Não é ilegal; porém, podemos dizer que é imoral, mas por parte de quem compra.

    Imoral pois ele fomenta uma mentira. O trabalho de conclusão de curso deve ser uma pesquisa apresentada pelo acadêmico ao fim dos anos de estudo, a oportunidade que ele tem de aplicar tudo o que aprendeu em um tema o qual ele tem completa liberdade para escolher. É uma pesquisa que, no momento da entrega, o acadêmico afirma ser sua.

    O problema maior de apresentar como seu um trabalho feito por terceiro é o risco que você assume de responder pelo conteúdo nele exposto, ou ainda por questões triviais, como o plágio. Você não sabe como o trabalho foi feito, o que foi pesquisado, o que está escrito ali, não pode atestar a autenticidade do documento que está sendo depositado. Resumindo, corre-se o risco de ter o trabalho barrado por insuficiência, plágio, reprovar, e ainda perder uma boa grana gasta à toa - os valores giram em torno de alguns milhares de reais, dependendo do tipo de tese.

    Para entender melhor as implicações do plágio, a Universidade Católica Dom Bosco produziu comigo e com o Professor Heitor Romero Marques um vídeo que usamos na pós graduação lato sensu e stricto sensu para debater o assunto. 


    Mas suponhamos que o sujeito que te vendeu a monografia seja alguém competente, e não há nenhum plágio no texto: você ainda precisa encarar a banca de avaliação. Já pude participar de algumas defesas na qual sabíamos que o trabalho havia sido comprado: chega a ser constrangedor ver o suposto autor não conseguir responder perguntas básicas que, em tese, ele deveria saber responder - imaginem alguém escrever sobre Direito Penal do Inimigo e não saber dizer quem é Günther Jakobs. Para os leigos, é como falar sobre Star Wars, e não saber quem é Darth Vader.

    "Ah, mas sempre dá pra estudar o trabalho". Não é tão simples assim. A banca não se prende a questionamentos desenvolvidos no trabalho: ela pode questionar sobre questões acessórias ao tema, fora do trabalho. Quem faz a pesquisa, quem lê os textos, quem escreve e organiza seu próprio TCC tem o verdadeiro domínio sobre o tema, portanto, é capaz de responder a qualquer pergunta que a banca eventualmente faça. Quem compra o trabalho, não: ele se limita a decorar um discurso padrão, mas muitas vezes é incapaz de desenvolver o tema nos questionamentos dos examinadores. Tudo isso se reflete na nota final.

    Mas se é tão ruim assim apelar para esse mercado de trabalhos, por que ainda há quem busque essa alternativa?

    O problema maior ao meu ver é o paradigma que se estabeleceu de que a monografia é um bicho de sete cabeças. Se você pesquisar por "monografia" no Google Imagens, vai ver dezenas de fotos retratando pessoas enterradas em pilhas de livros, com feições cansadas e/ou desesperadas. As pessoas já têm medo da monografia só de ouvirem que terão de escrevê-la no final do curso. Agora pegue esse medo, e some a ele uma pessoa que tem pouco ou nenhum hábito de escrita / leitura. O medo se soma ao conformismo, reforçando a ideia de que a monografia é um obstáculo intransponível. E isso sem nem ao menos tentar!

    Essa ilusão de que o trabalho de conclusão de curso é complicado é o combustível desse mercado de trabalhos prontos, que atentam muitas vezes contra a qualidade do profissional que está se formando. Se o sujeito não é capaz de uma tarefa simples, que é elaborar uma pesquisa (muitas vezes de 40, 50 páginas no mínimo), será capaz de realizar as tarefas profissionais cotidianas que lhe serão exigidas?
    Escrever uma monografia pode ser fácil. É uma questão muito mais de disciplina do que de conhecimento pré-estabelecido sobre um tema. Aqui vão algumas dicas para quem precisa encarar essa tarefa de frente em breve, e não sabe por onde começar:

    1. Começando do básico: a escolha do tema. Aqui não existe nenhuma fórmula mágica, somente um conselho que pode ajudar muito: escolha um tema que você acha interessante, que você goste, e que você vá sentir prazer de desenvolver. Muitos acadêmicos gostam de buscar a segurança de temas "básicos", com vasto material de pesquisa. O problema é que se você escolhe um tema "fácil" e que não goste, ele invariavelmente vai se tornar um fardo que você vai ter de arrastar na marra. O tema também define o tipo de pesquisa, se bibliográfica ou de campo. Atente-se a esse detalhe! Não tenha medo se o tema que você gosta tem pouco material: você tem um orientador exatamente para te ajudar nesse sentido.
    2. Aliás, essa é uma das fontes do medo das pessoas: elas esquecem que não precisam escrever nada sozinhas. A figura do orientador existe para te indicar os rumos da sua pesquisa, os materiais de leitura, se seu texto está no caminho certo ou não. A segunda dica é essa: use e abuse do seu orientador. Ele é o seu porto seguro na pesquisa, e se preciso, pegue ele a laço na universidade.
    3. A terceira dica é saber como dar o pontapé inicial. A maior dificuldade das pessoas é começar a escrever, mas depois que se começa, o texto deslancha. Saber começar o texto é fundamental, e existem diversas formas para isso. Você pode começar com um conceito do tema, ou com uma referência / contextualização histórica, uma citação, uma ilustração, um estudo de caso, um paralelo, uma comparação... Aqui, é sempre legal apelar para seus antigos livros e apostilas de redação: as regras básicas de dissertação que você aprendia no segundo grau aplicam-se todas aqui na sua monografia.
    4. Por fim, o fundamental: disciplina e metas. É preciso estabelecer uma rotina para sua pesquisa, definir um horário e os dias certos para você se desligar do mundo e se dedicar ao seu trabalho. Colocando metas, eu afirmo, qualquer pessoa é capaz de escrever um trabalho sobre qualquer assunto em poucos meses.
    Vamos trabalhar com um exemplo de uma rotina padrão de pesquisa e elaboração simultâneas: use de uma a duas horas por dia durante sua semana para leitura de livros, artigos, reportagens relacionadas ao tema. De segunda à sexta, você deverá se dedicar à leitura, a levantar informações, marcar nos textos os pontos importantes. Nos finais de semana, é hora de passar tudo pro papel. Estabeleça uma meta mínima: 5 a 10 páginas por final de semana, por exemplo. Metas são importantes, pois, se alcançadas, trazem um sentimento de dever cumprido muito importante para a auto-estima do pesquisador. Traz a segurança de que ele está no caminho certo, de que está evoluindo. Uma pessoa que escreva 5 páginas por final de semana terá uma dissertação de 40 páginas em apenas 2 meses.
    Não existem receitas milagrosas aqui: o mais importante é que o autor defina a rotina que melhor atenda a suas necessidades, mas principalmente que siga essa rotina.

    Escrever uma monografia, um TCC, o que for, não é um trabalho hercúleo como muitos dizem que é. Exige dedicação? Sim, como qualquer outro trabalho acadêmico exige. O vício do CTRL+C / CTRL+V sempre foi uma ameaça à qualidade e à inovação dos trabalhos, mas o mercado de monografias tem se mostrado um elemento ainda pior nessa equação. Todo acadêmico é dotado de uma inteligência que o torna único. Usar essa inteligência num trabalho que tenha sua cara é o ponto alto da academia. Pra que abrir mão desse momento para outra pessoa - e pior, pagar para isso?
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    Item Reviewed: Trabalhos de Conclusão de Curso: vale ter medo? Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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