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    segunda-feira, 7 de novembro de 2016

    O ENEM está mais difícil?

    A onda nas redes sociais agora são as reclamações dos candidatos acerca do nível da prova do ENEM, as quais fazem pesadas críticas sobre conteúdos  cobrados que nunca foram vistos em sala de aula, ou que havia pouco tempo para resolução de 90 questões, que era preciso ler algumas questões 3 ou 4 vezes para entender o enunciado, que os textos eram longos...

    Spoiler: não é para ser fácil mesmo, pessoal.

    É preciso que os estudantes entendam uma coisa: o ENEM não é um exame "pro forma", que se faz por fazer para ser aprovado inexoravelmente no final. Ele é intencionalmente difícil e cansativo porque tem caráter eliminatório. Foi desenvolvido para nivelar por cima mesmo, e separar os melhores candidatos que terão condições de ir para uma faculdade, fazendo hoje o papel que antes era do vestibular. Como futuro profissional, o candidato estará sujeito a situações de pressão e cansaço. O ENEM é só o "teaser" da faculdade, que é o "trailer" de um filme chamado "vida adulta". 

    Se um candidato for fazer uma prova contando apenas com o que aprendeu em sala de aula, bem, sinto muito, mas ele terá sérios problemas.

    Para ser justo e evitar pré-julgamentos, baixei dois cadernos de prova: o caderno BRANCO, do primeiro dia, e o caderno CINZA, do segundo dia. Fui ver as questões e tentar me colocar no lugar do estudante e, sinceramente, tive muita dificuldade para enxergar um nível de prova mais elevado.

    Preliminarmente: praticamente todas as questões trazem um texto de apoio. Não são textos muito longos, têm entre 6 e 12 linhas - ocasionalmente se via um ou outro mais longo. A prova segue a mesma forma de avaliação do início ao fim: traz um texto de apoio no enunciado, ou uma imagem, uma charge ou um gráfico, e pede que o candidato interprete para responder ao que é pedido. 

    A prova é praticamente inteira de interpretação textual. Não tem como fugir disso. Em algumas, é possível saber a resposta mesmo antes de ler as alternativas, a exemplo da questão 91, que transcreve um trecho da música "Ebony and Ivory", de Paul McCartney - era dito que músicos usavam suas produções para expressar e problematizar as questões do mundo. Nesse caso, o que o cantor estaria defendendo? O título da música já diz tudo, "Ébano (preto) e Marfim (branco)". Se ainda houvesse dúvidas, era só ler o primeiro verso: "ébano e marfim vivem juntos em perfeita harmonia, lado a lado nas teclas do meu piano. Oh, Deus, por que nós não?". Letra E: o respeito étnico.

    Há diversas questões que seguem essa mesma linha, como o gráfico da questão 6, que tratava da redução de natalidade, ou ainda a campanha de trânsito da questão 112. Questões simples, que podem ser facilmente resolvidas com uma leitura atenta das informações disponíveis na prova, textuais ou não. 

    Havia sim questões complicadas, como a de número 15, que tratava da função social da cidade, tema bem espinhoso mesmo para um acadêmico de Direito, ou a questão 20, que tratava do pensamento de Durkheim, mas estas eram a minoria comparadas às demais. 


    O que notei ainda foi um certo viés ideológico em várias questões - sem desmerecer os temas. Há questões que trazem de forma implícita a violência da polícia, mesmo o fato não tendo relação nenhuma com a pergunta (questão 103), feminismo / empoderamento feminino (questões 39 e 104), críticas ao capitalismo (questões 27 e 29), entre outras. Tive a impressão lendo a prova de que esta seguiu uma linha de pensamento marxista em sua avaliação - estar ciente disso ajudou na escolha de algumas respostas em questões em que eu tinha uma certa dúvida, como no caso da supramencionada questão 15. 

    No mais, é uma prova relativamente extensa, mas plenamente possível de ser realizada em 4 horas e meia. 

    A redação é um caso a parte: o tema escolhido, "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil", é extremamente pertinente e atual, apesar de algumas críticas que recebeu. Abundam na internet notícias de pessoas que são hostilizadas - e até agredidas fisicamente - por conta de suas escolhas e crenças (ainda mais considerando que as denúncias de intolerância religiosa cresceram incríveis 3.606% nos últimos 5 anos). O INEP acertou em cheio na escolha, mas, como nem tudo poderia ser perfeito, surgiu a denúncia de que o tema foi vazado pelo próprio MEC em uma postagem em rede social, em outubro do ano passado, fora as tradicionais tentativas de fraude. Esse pequeno detalhe do vazamento do tema da redação, infelizmente, pode colocar o exame todo a perder.

    Podemos concluir então onde estão as razões para a dificuldade da prova?

    Para responder a pergunta, é preciso que o candidato faça uma autocrítica: quantos livros leu esse ano? O foco da prova é totalmente voltado para a interpretação de texto, e isso é algo que está diretamente relacionado a um bom hábito de leitura.

    De forma a melhor entender a relevância desse questionamento, trazemos as seguintes informações: a pesquisa "Retratos da Leitura", publicada esse ano, aponta que 44% da população brasileira não lê, e que 30% nunca comprou um livro. Soma-se a isso o fato de que temos em média 40% de estudantes concluindo o ensino fundamental sem saber interpretar textos simples. Uma geração que não lê é uma geração que não consegue interpretar as informações que abundam à sua volta. Lê-se em média 4 livros por ano, o que é muito, muito pouco. Não é de admirar que as reclamações girem em torno de "precisar de muito tempo para ler os enunciados", ou "enunciados complicados", ou ainda "ler 3 ou 4 vezes para entender a questão". O problema não me parece o conteúdo em primeiro lugar - ainda que haja questões difíceis: a questão chave aqui é a incapacidade de alguns candidatos de interpretar um enunciado, muitas vezes, simples

    No que tange ao conteúdo, a educação tem sim suas falhas. Nosso sistema não é perfeito, carece de investimentos urgentes e de uma reforma que está há anos no papel. Só que o estudante, ciente de tudo isso e que quer vencer uma corrida na qual muitas vezes tem uma série de desvantagens, precisa também fazer sua parte e ler muito, estudar muito, correr atrás para compensar tal desequilíbrio. Se ele já sabe que a prova será difícil, e se ele já sabe que as aulas não são suficientes, debruce sobre os livros. Cursinho? Há diversos canais de aulas gratuitas no YouTube para quem quiser assistir. A internet está recheada de material de qualidade para estudar. Use a tecnologia a seu favor.

    Cada um é senhor do próprio destino, simples assim. A prova traz dificuldades sim, mas toda plenamente possíveis de serem superadas. Cabe a cada um escolher se vai viver sob o paradigma social que a vida lhe impôs, ou se vai fazer sua própria revolução cultural.
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    Item Reviewed: O ENEM está mais difícil? Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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