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    segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

    A onda da Justiça Social na rede mundial de computadores

    Por anos sempre torcemos para que as pessoas se levantassem contra desmandos e falhas que assolavam a sociedade moderna, que usassem as redes sociais para terem voz e se fazerem ouvir, que fizessem a diferença para melhor. Eu sempre torci para que esse dia chegasse, e como muitos, hoje, lamento o que vejo nas redes sociais, infelizmente. 

    Os últimos anos foram marcados pela ascensão dos Social Justice Warriors, os "justiceiros sociais" ou "guerreiros da justiça social", numa tradução literal. Não existe ainda um consenso para definir o que sejam, mas em linhas gerais, o termo, deveras abrangente, caracteriza grupos que se colocam como representantes de minorias, com pautas feministas, relacionadas ao multiculturalismo e outro tópicos liberais, e que de modo ativo procuram resolver supostas injustiças da sociedade moderna, organizando-se principalmente nas redes sociais como forma de disseminar seu discurso, muitas vezes agressivo e pouco aberto ao diálogo. Para se ter uma noção, o New Litteral History os classificam como "irracionais, hipócritas, tendenciosos e em busca de auto-engrandecimento".

    Reprodução do indie game "Social Justice Warriors", para PC, de 2014.
    Sei que o conceito parece radical e a ideia em torno do nome, pejorativa - a própria expressão "guerreiros da justiça social" é de fato usada de forma pejorativa desde que surgiu pela primeira vez no Twitter, em 2011 -, mas as ações de tais grupos não nos permite chegar a outra acepção que não essa. Vejamos alguns exemplos.

    No final de 2016, a Pepsico, empresa responsável por marcas como Elma Chips, realizou um concurso para que fossem escolhidos novos sabores para a batata Ruffles. Selecionados entre 30 finalistas, foram escolhidos três sabores que, mais tarde, foram produzidos e levados às prateleiras com o slogan "Prove e Vote". Caberia ao público eleger a melhor versão da batata, e o autor do sabor vencedor receberia R$ 10 mil em barras de ouro e 1% das vendas do produto. Um dos sabores fazia referência à feijoada, e a embalagem era estampada por um modelo negro. 

    Bastou isso para que uma campanha difamatória contra a empresa fosse promovida nas redes sociais, culminando inclusive com uma reclamação formal no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o CONAR, por suposto racismo, já que a empresa "estaria vinculando a imagem de um jovem negro à feijoada". Em nota, os conselheiros do CONAR refutaram completamente a situação:
    “Está na hora de deixarmos os exageros de lado e praticarmos o bom senso na avaliação do comportamento que envolver preconceito”.

    A denúncia foi, felizmente, arquivada. Um pequeno detalhe passou despercebido, porém: o "modelo" que estampava a embalagem da batata não era ninguém menos que o próprio autor da sugestão do sabor da batata. 

    Em outro caso mais recente, de dezembro de 2016, envolveu a marca de móveis Alezzia. Uma campanha iniciada nas redes sociais pela marca de móveis de aço inox despertou a antipatia de várias pessoas nas redes sociais, quando no dia 15 de dezembro, a empresa resolveu publicar algumas imagens de mulheres com maiô ou biquíni anunciando seus produtos. Após as primeiras publicações, os seguidores da página passaram a criticar veementemente a postura da empresa e condenaram a estratégia de "objetificação da mulher". Os responsáveis pelas mídias sociais da empresa ainda tentaram encarar com bom humor os ataques, mas receberam uma avalanche de avaliações negativas pelo Facebook, inclusive de pessoas que nunca haviam, até então, ouvido falar da empresa, além de ameaças, ofensas, até que hoje, um novo capítulo no episódio das polêmicas se desenrolou, com a página da empresa e de seus parceiros atacadas pelo grupo Anonymous Brasil, que assumiu a autoria do feito em sua página no Facebook, com mensagens como "machist@s não passarão". Classificaram os anúncios da empresa e o fato de terem contratado recentemente um estagiário que havia sido demitido por mensagens sexistas como "discurso de ódio". 

    Postagem da jovem Thauane Cordeiro
    O caso mais recente não foi menos preocupante: a jovem Thauane Cordeiro relatou, em seu perfil no Facebook, que estava na estação de metrô quando foi interpelada por uma mulher, que criticou o fato de a jovem estar usando um turbante. O objeto da crítica: "apropriação cultural", já que, por ser branca, estaria usando indevidamente um acessório identificado com a cultura negra. O problema é que Thauane encontra-se em tratamento contra um câncer descoberto há cinco meses. Mesmo assim, não faltaram mensagens em redes sociais acusando a jovem de "estar usando a doença para apropriar-se da cultura alheia", ou ainda "que se quiser, que esconda com um lenço ou um boné, mas com um turbante não".

    Outro caso que ficou famoso, mas em minha cidade, foi o do Trutis Bacon Bar. No dia 20 de julho de 2015, o estabelecimento publicou em seu perfil numa rede social a foto de uma vaca ao lado de um porco e a imagem de um hambúrguer na sequência, com a frase "best friends forever", uma clara piada. A imagem acompanhava a mensagem "os veganos que nos desculpem, mas bacon é fundamental”. A reação foi imediata: grupos de veganos, tomando aquilo como uma provocação, organizaram-se para avaliar negativamente a página do estabelecimento, ao mesmo tempo em que encheu-a de mensagens que iam desde ofensas, ameaças, até desejos de que o dono do bar "tivesse câncer e morresse". Em poucos dias, as 4,7 estrelas que obtivera em avaliações despencaram para 2,5. Mais de 600 pessoas entraram na página para atribuir a nota 1 ao estabelecimento. Desse episódio, mais de 12 registros de ocorrência por ameaças foram registrados pelo dono do bar. O dono, a exemplo do que aconteceu com a Alezzia, passou a responder de forma agressiva às críticas, e declarou guerra a veganos, feministas e ao politicamente correto como um todo.  Tais respostas apenas alimentam um ciclo de ódio que parece não ter fim, e hoje, tanto o bar quanto a loja de móveis, tornaram-se exemplos clássicos de estabelecimentos do tipo "ame-os ou odeie-os", um reflexo natural da polarização que as posições defendidas assumem nessas brigas. Não digo que estão corretos, e não concordo com condutas que apenas perpetuam comportamentos negativos na rede, mas é possível entender (não aprovar) essa reação por parte das empresas, infelizmente.

    Posso citar ainda o caso do filme "Quatro Vidas de um Cachorro", que teve um vídeo de maus-tratos forjado, e acabou sendo vítima de mais justiceiros sociais, que lideraram uma cruzada pelo boicote ao filme na internet, sem a menor preocupação em apurar a veracidade do material, mas eu já estaria sendo redundante. Já deu pra entender o problema, não?

    Sou só eu, ou isso já está indo longe demais?

    É como se o politicamente correto tivesse sofrido uma mutação e se transformado em algo cujo único foco agora é o cumprimento de agendas ideológicas a qualquer custo, mesmo que isso signifique calar as vozes dissonantes que se levantem contra as pautas propostas. Gritos de "machista", "fascista", "privilegiado" se multiplicam em universidades, rodas de debate, espaços públicos, e, principalmente, nas redes sociais. O diálogo parece estar morto.

    Postagem do Trutis que desencadeou a
    guerra nas redes sociais contra o bar
    No meu tempo, se uma empresa fizesse uma propaganda que não me agradasse, eu simplesmente boicotava a empresa e não comprava nenhum produto que fosse vendido por eles. Não gastava minha energia difamando, ofendendo, atacando em nome de uma ideologia ou de uma agenda. Se algo me causasse estranheza, a gente dialogava e questionava os porquês. Eu não saberia onde enfiar minha cara, sinceramente, se uma pessoa com câncer tivesse que justificar pra mim com sua doença o porquê de estar usando um lenço na cabeça. É o cúmulo da falta de empatia. Ora, podemos até não concordar com o que um ou outro diz, mas a liberdade de expressar suas opiniões é fundamental e deve ser defendida até o fim - e não me refiro aqui a mensagens de ódio travestidas de opinião, que fique claro.

    O maior problema desses justiceiros sociais, porém, não é o autoritarismo que eles representam. Não são os ataques ou as ofensas. A minha real preocupação é que tais grupos se apropriam de pautas legítimas de pessoas que realmente precisam ter suas vozes ouvidas, que realmente possuem reivindicações válidas, e ao usarem isso como ferramenta ideológica, acabam silenciando mais e mais essas vozes. Tais movimentos de "justiça social", que tentam impor pela força uma agenda estão ficando cada vez mais marginalizados sem qualquer credibilidade, o que vai fazer com que, invariavelmente, quando surgir algo realmente relevante na pauta para ser debatido, ninguém dará importância

    Há um esforço sobre-humano no sentido de problematizar as coisas, ou seja, criar problemas onde não existem. O porém é que quando tudo se torna ofensivo, nada mais é ofensivo. Esse é o ponto. Falamos aqui há alguns dias das polarizações que estão matando os debates, e confesso que demorou a me cair a ficha como esses guerreiros da justiça social agravam esse problema. Toda pauta é importante, mas a questão é que é preciso saber estabelecer o diálogo. A internet deu voz para as pessoas que permaneceram caladas por décadas, todos finalmente têm potencial para promover uma mudança. A falta de diálogo e de empatia, por outro lado, está nos levando a um mundo de ignorância e conflito cada vez maior, em que a troca de ideias está sendo gradativamente substituída pelo ódio e pela desigualdade. 
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    Item Reviewed: A onda da Justiça Social na rede mundial de computadores Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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