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    quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

    Da Polarização das Opiniões na Sociedade Brasileira

    O que pena de morte, política, legalização do aborto e liberação das drogas têm em comum?

    Os temas acima são bem distantes em vários pontos, mas representam uma mesma questão que considero extremamente problemática nos dias de hoje: a polarização dos debates, que tem afastado cada vez mais os lados opostos de uma discussão, prejudicando a convergência de ideias e o diálogo produtivo.

    Quantas vezes vocês já notaram a inflexibilidade com relação a algum tema? Adotar um posicionamento hoje demanda que você seja ou completamente a favor, ou completamente contra alguém ou alguma coisa - e pior, seu posicionamento pressupõe, para os debatedores, suas demais posições. Ser a contra a pena de morte, por exemplo, automaticamente te faz um "defensor de bandido"; ser a favor da liberação das drogas automaticamente te faz um "maconheiro zé droguinha". O diálogo se perde, a ganham força o desrespeito, o ad hominem, as ofensas, os conflitos. 

    Essa polarização é reflexo direto da falta de senso crítico proporcionada pela queda nos hábitos de leitura da população brasileira, somado à manipulação das informações por grupos interessados em defender suas respectivas agendas. Lembremos: 44% da população brasileira não lê, e que 30% nunca comprou um livro; temos ainda em média 40% de estudantes concluindo o ensino fundamental sem saber interpretar textos simples. Uma geração que não lê é uma geração que não consegue interpretar fatos, compreender a complexidade dos temas que debate, e que acaba perdendo a capacidade de refletir sobre as peculiaridades e desdobramentos de cada discussão, assumindo convenientemente posições absolutas sobre o que se é debatido. 
    "Somente um Sith lida com absolutos" (KENOBI, Obi-Wan).

    Repetem-se muitos discursos prontos e informações distorcidas replicadas à exaustão na mídia, sem que a fonte principal seja consultada; resumem-se questões complexas a posições binárias, "sim" ou "não", preto ou branco, sem que a enorme área cinza entre os dois seja explorada. Chega-se ao extremo de, ao se defender uma opinião, ignorar-se completamente todo e qualquer ponto de vista que seja contrário ao posicionamento adotado, o que faz com que grupos simpatizantes de um determinado ponto de vista se agrupem mais e mais, reduzindo drasticamente a pluralidade de ideias dentro de determinados círculos, que acabam por apenas repetir à exaustão as mesmas ideias. 

    Organizar-se em grupos ideologicamente homogêneos não é novidade: na década de 1970, o psicólogo Wayne E. Hensley publicou um estudo que consistia em mulheres pedindo moedas a estranhos para fazer uma ligação em um telefone público. A experiência mostrou que a empatia das pessoas mudava de acordo com o ambiente e com as roupas usadas pelas participantes do experimento: aquelas que estavam bem vestidas ganharam mais dinheiro de pessoas também bem vestidas em aeroportos; já as mulheres mal vestidas ganharam mais moedas de pessoas que se vestiam mal em pontos de ônibus. 

    A internet claramente agravou a problemática da polarização, principalmente considerando o papel marcante que as redes sociais desempenham na promoção da divulgação - e embate - de ideias e o seu próprio funcionamento, afinal, podemos selecionar os conteúdos que queremos que sejam exibidos, e outras informações são levadas até nós por algoritmos criados com base naquilo que buscamos, curtimos ou compartilhamos. As publicações que tragam opiniões que surgem em nossos perfis de redes sociais são inexoravelmente alinhados com nossos próprios pensamentos e ideologias. 


    Segundo o professor Samy Dana nos explica, tal organização "fechada" pode nos dar a sensação de conforto em conviver apenas com aqueles que compartilham dos nossos mesmos ideais. "O revés é que isso aumenta a nossa intolerância. Se nos acostumamos a dividir somente opiniões similares às nossas, diminuímos o espaço para ouvir e tentar entender os argumentos que são diferentes dos nossos. Também deixamos de perceber o risco da intensificação de ideias extremistas - que sempre são perigosas, independente de ideologia política -, já que elas ficam fora da "bolha" de similaridade que construímos ao nosso redor", ensina. 

    Veja o caso das 10 Medidas Contra a Corrupção do Ministério Público, por exemplo: é plenamente possível a adoção de uma posição intermediária, sendo a favor de alguns pontos e contra outros, até porque são várias medidas, algumas polêmicas, outras necessárias. Aborto: é possível ser contra o aborto mas a favor da legalização - principalmente se considerar que nos países em que a medida foi legalizada, o número total de procedimentos diminuiu por conta de toda a política de apoio que a regulamentação do procedimento demanda. O mesmo se repete com temas como PEC 241, Escola sem Partido, a ordem executiva do Trump com relação aos países de maioria muçulmana; temas polarizadores sempre terão espaço para um denominador comum, já que abordam vários pontos passíveis de debate.

    Ao se afastar a capacidade de diálogo, o que temos é uma sociedade dividida, enfraquecida, que é incapaz de unir-se em nome de um objetivo comum que seja de interesse de todos, o cenário ideal para oportunistas e pessoas de má-fé - aqueles mesmos grupos interessados em manipular os debates em nome de interesses particulares. É o interesse coletivo que deve ser perseguido, e as diferenças precisam ser equacionadas em nome do contrato social, só assim a democracia representativa vai, de fato, representar o povo que elegeu tais representantes. 

    Ninguém é obrigado a ser a favor ou contra um determinado posicionamento. Divergências sempre haverá, são fruto da pluralidade de culturas que temos em nosso país. A única situação que se recomenda, sempre, é que se busquem as informações de fato e a formação da sua própria opinião a partir das suas próprias convicções, e que busquem compreender a complexidade dos temas discutidos em todos os seus desdobramentos. Não adianta dizer, por exemplo, que "a cadeia tá ótima como está porque bandido merece", se o sistema não recuperar o detento que será colocado inexoravelmente de volta ao convívio em sociedade, que ficará exposta a novos crimes deste egresso. Toda ação implica em uma consequência, e são essas opiniões que formamos que influenciam diretamente em quem escolhemos como nossos representantes, ou que política vamos apoiar, por exemplo. Uma fala que nos soa agradável, muitas vezes, pode esconder uma série de problemas que passam batidos e podem explodir no nosso colo a curto prazo. 
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    Item Reviewed: Da Polarização das Opiniões na Sociedade Brasileira Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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