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    domingo, 30 de abril de 2017

    Abuso de menores como meio de... entretenimento?

    Esse é um caso que praticamente passou em branco na mídia brasileira, mas que demonstra a falta de limites que o mau uso de redes sociais pode representar - principalmente quando o assunto são crianças e abusos domésticos. 

    Há um canal no YouTube relativamente grande - atualmente ele conta com quase 800 mil inscritos - chamado "Daddyofive" (um trocadilho com a expressão "daddy of five", que seria, literalmente, "pai de cinco"). O canal funciona como vlog de seus mantenedores, Mike e Heather Martin, mas ficou famoso pelas "pegadinhas" que os dois fazem com os próprios filhos. A cultura das "pranks" é bem famosa nos EUA, e brincadeiras de pais com os filhos seria uma forma legal de chamar a atenção para novos seguidores do canal... não fosse o fato de que muitas delas chegam às raias da violência doméstica. 

    Mike e Heather Martin, os responsáveis pelo canal Daddyofive

    Em um vídeo, publicado no dia 12 de abril, os dois sujam o quarto dos filhos com tinta enquanto eles estão dormindo, e acordam os dois aos gritos acusando-os de terem feito a bagunça. Destarte o fato de as crianças estarem chorando copiosamente negando o ocorrido, os pais permanecem boa parte do vídeo ofendendo com extrema agressividade as crianças, e acusando-as de serem mentirosas. 

    Em outro vídeo, o casal avisa o filho mais novo (que tem ente 5 e 6 anos) que ele deve fazer as malas e que ele será adotado por outra família, pois eles não o amam mais. Mais uma vez, a criança entra em claro desespero e pranto, e os pais mantêm a "pegadinha" por minutos a fio. 

    Num terceiro, esse talvez o mais absurdo, o pai resolve fazer o desafio do "bottle flip" com um casal de filhos mais novos (um menino e uma menina). O desafio consiste em jogar uma garrafa parcialmente cheia de água e fazer a mesma cair em pé sobre a mesa. O detalhe: quem não conseguisse deveria tomar um tapa na cara do outro. A filha não consegue cumprir o desafio, e o pai constrange o próprio filho a agredir fisicamente a irmã. 

    O caso, obviamente, despertou a atenção - e a revolta - da comunidade produtora de conteúdo do YouTube, que começou a tecer severas críticas (e com razão) ao que o casal vinha fazendo com os próprios filhos. Mike e Heather, obviamente, negaram que estivesse havendo algum abuso, que eram no geral sempre muito amorosos com os filhos e que as "pranks" eram falsas, tanto que já haviam sido investigados pelo Child Protective Service (o Conselho Tutelar do EUA) e nada havia sido verificado de errado. 

    Pois bem, dessa vez foi diferente: vários YouTubers e influenciadores digitais compilaram em vídeo, antes que estes fossem deletados, os abusos perpetrados pelo casal. Resultado: duas das crianças, que eram filhos de Mike de um primeiro casamento, já tiveram a guarda transferida para a mãe biológica. Os dois agora estão mais uma vez sendo investigados pelos abusos, mesmo após terem apagado todos os vídeos do canal e mantido apenas um em que pedem desculpas por tudo o que fizeram. 

    É difícil entender a falta de bom senso com o que se faz e publica na internet nos dias de hoje. Esse caso extrapola todos os limites de maus tratos físicos e psicológicos que podem se abater sobre crianças, pois reduz esse crime absurdo a material de entretenimento para as massas. Não faltaram, obviamente, "fãs" que tentassem defender o casal, mas felizmente a maioria das pessoas que soube dos casos não compactuou e não aceitou esse tipo de coisa. 

    Não é difícil de encontrar situações parecidas em canais brasileiros do YouTube: vários já postaram vídeos em que "queimavam mendigos" (apesar de falso, trazia como entretenimento uma situação de apologia criminosa), matavam animais, e pegadinhas de gosto duvidoso que beiram a crimes contra a honra. A liberdade que a internet traz para as pessoas acaba sendo subvertida pela falta de compreensão do que representa de fato a nossa liberdade de expressão. Não existe liberdade sem responsabilidade, e ainda que ela seja um dos pilares de sustentação fundamentais do Marco Civil da Internet, os produtores de conteúdo precisam saber que essa liberdade não os torna imunes à eventuais atos que gerem responsabilização civil e criminal. 

    Internet não é terra sem lei, não é quintal da sua casa, e, definitivamente, não é lugar para promoção de condutas abusivas contra terceiros como meio de diversão. Isso não é defender o politicamente correto - outra situação que têm estragado completamente a experiência de uso da grande rede e matado debates por onde quer que se instale -, mas defender o fato de que o seu direito acaba quando começa o direito do próximo. Simples assim. 
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    Item Reviewed: Abuso de menores como meio de... entretenimento? Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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