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    quarta-feira, 19 de abril de 2017

    Vamos falar de futebol? Flamengo, STF, e o Brasileiro de 87

    No meio de tanta coisa mais importante acontecendo no Brasil atualmente, sempre é bom fazer uma breve pausa para discutir algumas amenidades - ainda que essas amenidades despertem mais paixões que muitas outras questões de relevância nacional. Ontem, no dia 18 de abril, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o Sport Clube Recife é o único campeão do campeonato brasileiro de 1987, tirando dessa forma do Clube de Regatas do Flamengo o título histórico. 

    Paixões à parte como rubro-negro que sou (e o rubro-negro certo, que fique claro), com a devida vênia, vou discordar da decisão da suprema corte. 

    Comecemos contextualizando o que era o futebol em meados da década de 80: o campeonato de 1986 havia sido um fracasso de público, era "inchado" - contava com de 30 times - pois não existiam as divisões como conhecemos hoje, e tinha quedas de audiência além da perda de patrocínios cada vez maiores. A situação chegou ao ponto tal de que, no dia 7 de julho de 1987, o então presidente da CBF, Octávio Pinto Guimarães, simplesmente declarou que não havia quaisquer recursos para organizar o campeonato. O futebol, como dissemos, já vinha em um cenário de crise há anos, reflexo do próprio cenário político nacional - em 1985 elegemos nosso primeiro presidente civil. As atenções eram outras. 

    Flamengo de 1987: Lenadro, Zé Carlos, Andrade, Edinho, Leonardo e Jorginho (em pé); Bebeto, Ailton, Renato Gaúcho, Zico e Zinho  (agachados)

    Foi nesse diapasão que surgiu o Clube dos 13, formado em 11 de julho de 1987, reunindo os representantes dos 13 clubes então melhor colocados no Ranking da CBF: os quatro grandes de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos), os quatro grandes do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense e Botafogo), os dois grandes de Minas Gerais (Atlético Mineiro e Cruzeiro), os dois maiores do Rio Grande do Sul (Internacional e Grêmio) e o Bahia.

    A proposta do Clube dos 13 era que o campeonato fosse disputado por esses times. Os demais 19 clubes que ficariam de fora, e que compunham o campeonato originalmente planejado - e abandonado pela CBF - disputariam outro torneio, do qual sairiam 3 para se juntar aos 13, formando a Primeira Divisão, com 16 clubes. Os 16 restantes formariam a Segunda Divisão. 

    A CBF e o Clube dos 13, depois de muitas idas e vindas com relação à organização do campeonato, chegaram então finalmente a um acordo: haveria quatro módulos, que extra-oficialmente seriam considerados quatro divisões - módulos verde, amarelo, azul e branco. Na Primeira Divisão (o Módulo Verde), ficariam os membros do Clube dos 13 mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz. A CBF chegou a propor já nessa época o quadrangular com a Segunda Divisão (o Módulo Amarelo), mas o Clube dos 13, porém, desde o início não aceitava a proposta de cruzamento entre módulos, regra que teria imposta pela Confederação apenas DEPOIS do início da competição - e essa é uma informação absurdamente importante. 

    No dia 4 de setembro de 1987 foi noticiado o acordo. O campeonato teria 16 times no módulo verde (primeira divisão) e 16 no amarelo (segunda divisão). O Clube dos 13 negociaria o evento e a CBF incluiria três times. No comunicado entregue à imprensa pela CBF, com o campeonato já em andamento, lia-se que “a classificação dos representantes do Brasil na Taça Libertadores da América ocorrerá na abertura da temporada de 1988, sob forma de um torneio quadrangular, integrado pelos dois primeiros colocados dos módulos verde e amarelo" (O GLOBO, 04/09/87). Não se falava em campeão. 

    A história a partir daqui, todo mundo conhece: Flamengo e Internacional se sagraram campeões em campo no Módulo Verde, enquanto Sport e Guarani disputaram a final do módulo amarelo. Após uma disputa de pênaltis que terminou empatada em 11 a 11 (pois é, o Sport não foi capaz nem de vencer a final que dipsutou), a CBF deu o título ao Sport sabe-se lá por que razão. 

    Em 2011, a CBF veio a declarar dois campeões brasileiros em 1987: o Flamengo e o Sport. Tal decisão ratificava o conteúdo de um documento assinado pelo próprio presidente do Sport Clube Recife, em 2008, reconhecendo o Flamengo como campeão de 1987, como condição para integrar o Clube dos 13. O Sport, porém, recorreu junto à Justiça Federal de Pernambuco, em 2011, da decisão da CBF, que voltou atrás na divisão do título entre as equipes. Ou seja, estamos diante de um time que contradiz documentos que eles mesmos assinaram, e cujo único título brasileiro da série A foi ganho em tribunais, já que em campo não conseguiram sair de um empate em 11 a 11 (isso nunca perde a graça, sinceramente).

    A briga saiu dos campos e passou a ser nos tribunais. Outro ponto interessante é levantar que em 1987, ainda vigorava a Lei 6251/1985, que firmava o Conselho Nacional de Desportos como a última instância no esporte brasileiro. As federações não tinham autonomia para dar a última palavra em questões jurídicas. A CBF aceitou o fato de o Clube dos 13 organizar e, depois, intrometeu-se para não ficar em baixa. O Clube dos 13 não aceitou e recorreu ao CND, que declarou o Flamengo, por unanimidade, campeão brasileiro, ao declarar a ilegalidade do cruzamento entre os módulos. Até hoje não consegui entender por que levar para a justiça comum algo que já estava há décadas decidido na justiça desportiva. Jus esperneandi, talvez?



    De lá pra cá, Flamengo e Sport têm travado uma guerra nos tribunais por conta de um campeonato que o Flamengo ganhou em campo, e o Sport acredita ser merecedor por uma completa presepada armada pela própria CBF naquele ano. É uma fase triste do futebol que estamos vivendo, não apenas na esfera nacional, mas internacional, afinal, hoje, títulos se ganham por decisões judiciais ou canetadas. Santos, São Paulo, Flamengo "não são mais campeões mundiais" por conta de uma mudança de regulamento da FIFA; Flamengo "não é mais campeão de 1987" por conta de uma decisão judicial. Essas canetadas são um desrespeito com a história do futebol brasileiro, e o clubismo ainda cega as pessoas de maneira tal que chega a ser patético. 

    O Flamengo de 1987 era um dos maiores times do Brasil, e venceu o torneio de 1987 enfrentando gigantes como São Paulo, Corinthians, Botafogo, Palmeiras, Vasco, Fluminense, Internacional, entre outros. Venceu em campo, enquanto o Sport não conseguiu sequer vencer a final do módulo que disputou, equivalente à segunda divisão do campeonato na época. O Sport e a sua torcida podem ficar com o troféu, porém não será isso que vai mudar o fato de que o Flamengo é Hexa na Raça, e o verdadeiro campeão em campo daquele torneio de 1987. As memórias, o sentimento, a vibração daquele ano não se apagam por meio de despachos e decisões, e falo isso como um apaixonado pelo Direito que sou.
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    Item Reviewed: Vamos falar de futebol? Flamengo, STF, e o Brasileiro de 87 Rating: 5 Reviewed By: Raphael Chaia
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